Poetismo

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Apetece-me espetar palavras. Sim, é esse o verbo. Apetece-me espetá-las com fúria só para dizer que escrevo com convicção. Não... Só para dizer que me liberto. Sim, é isso.

quinta-feira, novembro 16, 2006

A tua Pequena Dor

a tua pequena dor
quase nem sequer te dói
é só um ligeiro ardor
que não mata mas que mói

é uma dor pequenina
quase como se não fosse
é como uma tangerina
tem um sumo agridoce

de onde vem essa dor
se a causa não se vê
se não é por desamor
então é uma dor de quê?

não exponhas essa dor
é preciosa é só tua
não a mostres tem pudor
é o lado oculto da lua

não é vicío nem custume
deve ser inquietação
não há nada que a arrume
dentro do teu coração

talvez seja a dor do ser
só a sente quem a tem
ou será a dor de ver
a dor de ir mais além?

certo é ser a dor de quem
não se dá por satisfeito
não a mates guarda bem
guardada no fundo do peito.

Rui Veloso & Carlos Tê

quarta-feira, agosto 02, 2006

Frutos

Pêssegos, peras, laranjas,
morangos, cerejas, figos,
maçãs, melão, melancia,
ó música de meus sentidos,
pura delícia da língua;
deixai-me agora falar
do fruto que me fascina,
pelo sabor, pela cor,
pelo aroma das sílabas;
tangerina, tangerina.

Eugénio de Andrade

quarta-feira, julho 26, 2006

Mudez

Que desgraça, meu Deus!
Tenho a Ilíada à minha frente,
Tenho a memória cheia de poemas,
Tenho os versos que fiz,
E todo o santo dia me rasguei
À procura não sei
De que palavra, síntese ou imagem!
Desço dentro de mim, olho a paisagem,
Analiso o que sou, penso o que vejo,
E sempre o mesmo trágico desejo
De dar outra expressão ao que foi dito!
Sempre a mesma vontade de gritar,
Embora de antemão duvidar
Da exactidão e força desse grito.

Mudo, mesmo se falo, e mudo ainda
Na voz dos outros, todo eu me afogo
Neste mar de silêncio, íntima noite
Sem madrugada.
Silêncio de criança que ficasse
Toda a vida criança
E nunca conseguisse semelhança
Entre o pavor e o pranto que chorasse.

Miguel Torga

sábado, junho 24, 2006

XXV Poema duma Guardadora de Ausências

À mesa deste café
Traço a caligrafia das palavras nunca escolhidas.

Neste tampo circular, de intacto vidro espelhado,
repousa a chávena de café - um tempo irreversível.

Uma bruma invade a sala;
e a onda de fogo dum olhar contido incendeia a palavra,
a única palavra que reinventei e quero ousar escrever.

Docemente, giram no tampo da mesa circular
os sentires dos hieróglifos duma caneta
que, presa entre o indicador e o polegar,
rasteja como uma tímida serpente de luz
sobre os suaves caracteres (ah, tão inábeis!)
da palavra "amo-te".



Bernadete Costa*, A Guardadora de Ausências
2000

*poetisa barcelense

segunda-feira, maio 29, 2006

Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer,
enquanto o nosso amor durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

Miguel Torga